sábado, 17 de setembro de 2011

Journey - ECL1P53

Abrindo a seção de resenhas de discos aqui do blog, não teria por que não iniciar com um da banda que mais gosto, por isso, começamos com o mais novo álbum do Journey, "Eclipse".

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"Eclipse" é um disco que nenhuma banda nova, recente - com menos de 20 anos - conseguiria fazer. Isso é fato.

O grau de maturidade das composições e, principalmente, da execução das faixas é algo impressionante. Para quem esperava algo na mesma linha do "Revelation", de 2008, seguindo uma algo mais convencional ao que a banda já estava acostumada a fazer, disco esse que marcou a estréia do filipino Arnel Piñeda - encontrado pela banda no Youtube, em um cover de "Faithfully" - nos vocais, sucedendo o mestre Jeff Scott Soto, enganou-se.


O disco segue o mesmo raciocínio apresentado em “Trial By Fire”, diferente, com composições diferentes. Uma abordagem mais experimental, conceitual dentro da proposta da banda. Quando vi, antes mesmo de vazarem músicas e tal, que o disco teria a mesma sistemática do clássico de 1996, animei-me. 

O que temos é um disco completamente diferente do que já foi produzido pela banda, soando pesado - e muito -, sem muitas baladas (o que é marca fundamental nos discos a partir dos anos 80) e com bastante ênfase nas linhas de guitarra do Neal Schon, que nos brinda com sua melhor performance técnica da carreira, sem dúvidas. Vale destacar também a presença de canções longas, sem aquela fórmula batida "Intro-Canto-Refrão-Canto-Refrão-Solo-Refrão", com muitos temas, solos e refrães marcantes - além, claro, da retomada de sonoridades já produzidas, valendo lembrar, todavia, que nesse caso trata-se de sons mais "lado b" da banda.

O já mencionado Arnel Piñeda, bastante criticado pelos fãs - inclusive por mim -, sendo considerado "fraco", "uma tentativa de cópia do Steve Perry" etc., nos mostra uma performance matadora, cantando muito, mesmo, digna de calar a boca de quem dizia que o rapaz não sabia cantar. Tal constatação ocorreu pelo fato de nesse disco as músicas terem sido feitas especificamente para seu timbre e alcance vocal - algo diferente de apenas interpretar canções feitas na voz de outro sujeito.

Seguindo a análise "por músico", Ross Valory apresenta um baixo extremamente pesado - dado que passou a utilizar os famosos "bongôs" da Music Man -, firme, sempre junto às linhas de bateria do Castronovo. O tecladista Jonathan Cain, no disco, não escreve muitas músicas e seu teclado aparece de forma muito discreta, diferente ao que estamos acostumados em observar em "Separate Ways", mas fundamental - além disso, vale dizer que ele está tocando guitarra em muitas faixas, inclusive ao vivo. As linhas de batera do Deen estão "sem firulas", firmes, com batida forte e bem marcada, fazendo a "cozinha" de peso juntamente com o Ross, para que Schon simplesmente destrua tudo. Com relação a este último, apenas digo que seus timbres de guitarra estão matadores, muito bem produzidos (como o disco todo, evidentemente), aliados à sua técnica - em breve farei um post sobre o set-up desse grande guitarrista

O disco foi lançado em edição simples e deluxe: primeira vem apenas com o CD, não em uma caixa de acrílico, mas sim e papelão, com um belo acabamento; já a edição deluxe se trata de um Box que contém o CD, dois LPs e fotos da banda. Uma bela edição, feita para quem gosta de comprar os discos – como eu. Acredito que essas edições especiais são uma forma de as gravadoras não perderem o público fiel nesses tempos de downloads e tal... 

Versão Japonesa Simples

Box Deluxe
 
Vamos dar uma passada "track by track" pelo disco.

"City of Hope" abre o album com uma sonoridade bastante familiar, com os riffs de guitarra e os vocais dominando. No final - algo diferente na história da banda - a música dá uma acelerada, comandada pelo Castronovo. Ótima música. "Edge of the Moment" abre com um riff destruidor, pesado e sombrio - aliás, essa é a sonoridade da música por inteira, que nos brinda com um belo refrão. "Chain of Love", em minha opinião, é a melhor música do disco. Ela começa com um teclado orquestrado, sombrio e segue com um riff brutal - nunca tinha ouvido uma entrada de guitarra tão pesada em nenhum outro disco da banda -, além, claro de um belo refrão: melódico e pegajoso. Em seguida temos "Tantra", a primeira balada do disco, muita gente pode achá-la brega e coisas do tipo, mas, com certeza, é uma das melhores baladas lançadas nos últimos 3 - 4 discos. Ela começa apenas com Cain e Arnel, que segue bastante melódico, e depois temos a entrada da banda toda, dando forma e coesão à música. Uma bela faixa, com certeza.

Enquanto as quatro primeiras músicas foram destruidoras cada uma a sua maneira, em "Anything is Possible" temos um AOR clássico, mais chegada aos padrões do estilo. Uma faixa bem legal, mostrando que os mestres do AOR também sabem fazer o "arroz com feijão". Em seguida somos brindados com "Resonate", outra grande música do disco: bastante próxima ao apresentado no início do disco, sombria, pesada e com um excelente refrão. O solo do Neal Schon nessa música, assim como em todo o disco, está matador, mostrando a competência de anos, sempre fiel ao seu já consolidado estilo: bends, pentatônicas, alavancadas...

Chegamos à metade do album. É aí que a coisa começa a mudar de figura.

De fato, há uma queda na qualidade das música em comparação ao apresentado até então, mas - defendo - isso se deu pelo fato de as 3 primeiras abrirem o disco de forma diferente ao que já tinha se ouvido nos outros álbuns e a expectativa de se ver composições nesse nível se mantém pelo restante da audição.

Mas isso, de forma alguma, compromete a qualidade do disco.

Temos logo em seguida "She's a Mystery", uma longa canção (7 minutos) feita no violão, inicialmente com ele sozinho, mas depois com acompanhamento da banda, dando uma sonoridade bem setentista, que remete aos discos "Infinity", "Evolution" e "Departure". Essa música não possui um grande refrão. É diferente do AOR que a banda está acostumada a fazer. Uma faixa boa, que cresce ao final e termina com outro belo solo do mestre Schon. Continuando temos "Human Feel" - o grande momento dessa segunda parte do disco - que segue com uma levada meio tribal feita pelo Deen e um riff legal. É uma canção longa, agitada e possui um grande refrão, seguindo também uma linha mais setentista, menos radiofônica.

Em seguida temos "Ritual". Não gosto dela, serve apenas para encher linguiça. Apesar da minha opinião, é um hard rock melódico legal, rápido, com uma quebra no meio da música interessante e só. Com "To Whom It May Concern" somos apresentados a outra bela balada, com outra bela interpretação do Arnel Piñeda e um tema bonito feito pela guitarra, que segue pela música. A penúltima música, "Someone" é um som muito bem feito, bastante próximo ao que a banda fez no "Revelation" e no "Arrival", e que tem um refrão contagiante, melódico. Bela música. Por fim, temos "Venus", uma faixa instrumental, com orquestra, em que o Neal Schon rouba a cena. É uma continuação de "To Whom It May Concern", que se tivessem sido colocadas juntas, daria um épico de 9 minutos.

Com certeza esse é um grande disco, um dos melhores e mais complexos já feitos pela banda, pois, apesar de ter uma queda no estilo das músicas a partir da segunda metade, abrange composições mais pesadas e sombrias, baladas já conhecidas, os típicos AOR's e há também uma retomada em alguns trechos à sonoridade típica do fial dos anos setenta, antes do lançamento dos clásiscos "Escape", "Frontiers" etc.

Coloco esse album como o melhor do ano dentro da categoria AOR, pois vai contra a maré do que está acontecendo no estilo - os mais recentes lançamentos não nos acrescenta nada de mais, soando extremamente parecidos uns com os outros, seja em relação a bandas novas ou às clássicas. E o Journey -  a melhor banda do gênero, mesmo tendo uma carreira consolidada e motivos de sobra para se acomodar, não se limita a lançar apenas coletâneas ou meras tentativas de reproduzir os tempos áureos da carreira. Isso é bastante válido e deve ser levado em conta na avaliação do disco.

Acredito que "Eclipse" veio para figurar no mesmo patamar de "Escape" e "Frontiers", com certeza. Essa minha opinião só poderá ser confirmada com o passar dos anos, e espero que seja.

Finalizando estas linhas, fomos brindados com aproximadamente 60 minutos de excelente música, para calar a boca daqueles (muitos) que dizem não ser mais feita música de qualidade atualmente, feita por uma das bandas mais competentes de todos os tempos - não é a toa que os caras ainda estão na ativa, firme e fortes. Espero que eles não parem de lançar disco nem de sair em turnê, pois a mesma qualidade que ouvimos nos discos, vemos ao vivo.

sábado, 27 de agosto de 2011

VIII

Fim de tarde, detalhadamente, dezoito horas, retornava para casa após mais um dia de serviço, dia esse que não foi dos melhores pois seu superior lhe cobrou a pesquisa que deveria ter sido feita até o final do expediente, para dar a resposta ao cliente em um caso de separação, mas não o foi, já que deixara para a última hora e, no fim de semana, saiu com os amigos... ou pensou.

Passava ultimamente muito tempo em divagações, pensando em alguém que ainda não conhecia.

Filho da puta - pensou - não preciso deste emprego, é só cobrança, não há um pingo de reconhecimento. Ele não se lembra daquela vez em que resolvi... mas deixa para lá, não deu, não deu... Enquanto trocava de música em seu mp3 player e esperava o ônibus chegar, na fila, olhou para trás - a fila já grande - e notou  uma bela moça dirigindo-se ao final. Gostou do que viu e ficou, em seguida, contando o número de pessoas em linha, com o intuito de ver se seria possível ela embarcar no mesmo ônibus e, principalmente, se daria para ela sentar próximo a ele.

O cobrador permitiu à senhora no começo da fila o embarque, passavam, pagavam e procuravam o melhor assento. Na sua vez, André passou, escolheu um banco que ficava de frente a outro - ao contrário do convencional, em que uma pessoa fica de costas para outra - e aguardou... Passaram senhoras, trabalhadores, estudantes, e ele esperando pela garota, em vão - pensou - mas, mesmo assim, esperou.

A bela moça sentou à sua frente, já que era um dos poucos lugares vagos no coletivo, e notou que o jovem a observava. Lanço-lhe um olhar, apenas, e desviou sua atenção para a música em seu celular. Nesse momento André sentiu um calor, uma ansiedade, e a observou mais atentamente, procurando uma forma de iniciar um bate papo - era uma moça loira, com cabelos longos ultrapassando os ombros, tinha a pele bronzeada, os traços finos, do queixo, da boca, dos olhos, que eram escuros, misteriosos pode-se dizer até, a sobrancelha bem feita, com o nariz um pouco desproporcional, mas delicado... e, claro, apresentava-se bem vestida. Diante disso, deduziu que ela, pelo horário, estivesse indo para a faculdade - o que ele, de fato, deveria estar fazendo - pois ela não aparentava possuir mais do que vinte e três anos e não era possível ela trabalhar apenas para sustentar a família, se é que vivia sozinha.

Fixou-lhe o olhar, aguardando algum retorno... em vão.

Olhou pela janela - carros, noite, faróis, fumaça, multidão - e imaginava que ela pudesse iniciar uma conversa, já que minimamente esboçou uma reação nesse sentido - ela sentou perto de mim - pensou. Quando percebe e olha em direção à moça, ela desvia o olhar, fixando-o no chão do coletivo. André tem a confirmação do que esperava e aguardou, agora mais esperançoso.

Lançou-lhe um novo olhar.

Nada.

Olhou para a janela.

De canto de olho, notou que ela o fitava, mas nada fez - continuou escutando sua música, matutando em uma forma de iniciar uma conversa com a moça.

E continuaram nesse ciclo infindável de vergonha e timidez recíproca por um tempo.

André precisava se levantar, estava chegando a seu destino. Enquanto pegava sua mochila e a colocava nas costas, sentiu-se mal, incapaz por não ter, no tempo todo dentro do ônibus, iniciado um simples diálogo, uma conversa informal com a moça, o que não acontecia pela primeira vez, é verdade... o que tenho, sou feio... não... não sei... mas, assim mesmo, lançou um último olhar, pelos ombros, em direção à moça, como se isso adiantaria em algo, e viu que ela se levantou também - deve ser daqui da região mesmo, ou estuda por aqui - pensou.

Desceu e seguiu em direção a sua casa, sempre, claro, de forma discreta, dando uma olhada para trás, esperando que ela seguisse pelo mesmo caminho. E, para sua surpresa, o que lhe ocorreu pela cabeça estava acontecendo. Diminuiu os passos para que ela se aproximasse. Chegou até a parar por dois, três segundos.

Dobrou a esquina do prédio e, pouco antes de entrar pelo portão, deu uma última olhada para trás, cumprimentou o porteiro e seguiu em direção ao hall, para esperar o elevador. Nesse tempinho escuta o portão de entrada do prédio bater e dá uma olhada: era a garota por quem se apaixonou momentos antes.

O elevador já tinha chegado, mas mesmo assim esperou até que a loira adentrasse ao hall do edifício. Ao entrar, a moça mediu André dos pés a cabeça, olhou-lhe nos olhos e deu um leve sorriso, dirigindo-se imediatamente ao seu elevador, pertencente a outro bloco do edifício, que já se encontrava no andar térreo. 

As mesmas sensações que ele sentira há pouco passaram-lhe novamente pelo corpo, mas estava, principalmente, confortável por não ter sido culpa dele a ausência de contato entre os dois durante o trajeto para casa, mas sim culpa do fato de - pensava - ela sentir-se insegura, com medo de que qualquer  estranho a aborde e queira saber sobre sua vida, pois nos dias atuais realmente é perigoso sair relacionando-se com qualquer indivíduo, falar sobre aspectos particulares etc. Normal, ainda bem.

Engano, não lhe perguntou nem o nome. Engano.

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

4:20

Eram quatro e vinte, exatamente.

Olhou novamente para o relógio, cumprimentou os quatro amigos. Estavam no local combinado - o parque já conhecido, no grande verde tapete, onde jogavam conversa fora.

Pegou o ônibus. Foi para casa. Comeu. Leu o romance indicado por Paula. Caiu no sono... Acordou. Estava no terminal. Muitos passavam. Velhos. Mulheres, feias. Crianças. Ambulantes. Amputados. Imerso em pensamentos - sentia frio, lembrou do almoço, calor, agachou-se. Estava no jogo. Com a 10. Pelé. Paula torcendo por ele. Fez um golaço. Passou a bola. Foi fominha. Estava na aula. Na sala. Dentro do boteco. Fora. No corredor. No alambrado. Ramones (gosto). Com os camaradas, sempre eles. Acordou, com Paula. Ah.......... Paula. Amou. Brigou. Odiou. Arrependeu-se. E disse as três palavras. Suicidio. Lembrou de Dostoievski, Raskolnikov, Nástienka, Karamazov. Rasputin - que beleza. Tenho que comprar. Pão. Leite. Mais. Está acabando. Terminal. Rodovia. No ônibus. No parque. No cinema - nadou, nadou - Paula ao seu lado. E cansou.

Olhou novamente para o relógio, para os amigos. Deu um suspiro.

Eram quatro e vinte, mais alguns segundos.

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Uma grande Trapista: Rochefort 10º

Ontem tomei uma Rochefort 10 e não poderia deixar de escrever sobre a bela experiência que tive ao apreciar essa excelente expositora das trapistas belgas.
Rochefort 10º aqui em casa
Antes de mais nada, por se tratar de uma cerveja trapista, é fundamental apresentar o conceito desse tipo de cerveja, além das características de como, onde e por quem elas são produzidas.       

            Cervejas Trapistas

Não são consideradas propriamente um estilo único, pois algumas são Dubbel, Tripel ou Quadrupel. Todavia, dado o fato de algumas cervejas trapistas serem consideradas as melhores do mundo por inúmeros especialistas, merecem ser “separadas” das outras.

A Ordem Trapista (oficialmente, Ordem dos Cistercienses Reformados de Estrita Observância) é uma congregação religiosa católica. Seus monges seguem o princípio fundamental do ora et labora, vivendo em grande austeridade e silêncio. Fazem três votos: pobreza, castidade e obediência. Assim, as cervejas, fabricadas em pequenas quantidades no interior dos mosteiros, muitas vezes são difíceis de ser encontradas no mercado, já que os monges não as comercializam com o propósito do lucro, mas apenas para manter o funcionamento da própria abadia e alguns serviços de caridade.

Atualmente, a ITA (International Trappist Association), entidade criada com o propósito de definir as regras do estilo e proteger o nome do uso abusivo por parte de outras marcas, possui como membros apenas sete abadias trapistas, seis na Bélgica (Westvleteren, Chimay, Orval, Achel, Wesmalle e Rochefort) e uma na Holanda (Koningshoeven, onde são fabricadas as cervejas La Trappe). A entidade criou, também, um selo de identificação que só pode ser utilizado em produtos trapistas autênticos.

           
No caso da Rochefort, ela é produzida, obedecendo a um processo bastante rigoroso de seleção de ingredientes, na Abadia de Notre Dame, em Saint-Remy, situada a mais ou menos cinco quilômetros da cidade de Rochefort, por aproximadamente 15 monges que residem no monastério, que têm como característica o fato de serem bastante secretos com relação ao processo de fabricação da cerveja, que não é aberto ao público.

A abadia, como já foi mostrado acima, não vê na produção uma forma de obter lucros e produz cerveja desde 1595, sendo tanto a Rochefort 10º quanto a 6º produzidas a partir de 1953, quando, após a II Guerra Mundial, o local em que as cervejas eram produzidas pegou fogo e os equipamentos precisaram ser repostos, contando, inclusive, com equipamentos da Cervejaria Trapista Chimay - isso significa dizer que durante todo esse tempo (até o incêndio), apenas a Rochefort 8º era feita pelos monges, entrando as irmãs "6" e "10" no catálogo trapista após tal incidente.
Vista aérea da Abadia

Jardim aberto para visitas no local


Os números que diferenciam as cervejas dizem respeito à densidade em "Belgian degrees", em que, quanto maior a numeração, maior a força, a graduação alcoolica da bebida. Densidade essa não relacionada diretamente à porcentagem de álcool inserido, mas sim à quantidade de açúcar dissolvido presente na mistura antes do processo de fermentação. Isso é verdade que a graduação alcoolica da Rochefort 10 é de 11,3%, e não 10% como à primeira vista intui-se.

Essa quadrupel contém os seguintes ingredientes: malte de cevada, amido de trigo, açúcar cândi branco e marrom (açúcar em cristais grandes e duros, como pequenos caramelos, que se dissolve lentamente, liberando aos poucos seu dulçor) e os lúpulos Hallertau e Styrian.

Para deixar bem claro, essa é uma das cervejas mais complexas que já provei: o corpo, o aroma e o sabor representam uma explosão de sensações agradáveis e dignas de "se pensar" a respeito.

A cerveja apresenta coloração marrom-avermelhada, com uma espuma beje, que, embora não seja permanete, deixa uma camada fina a todo instante sobre o líquido. Ao colocarmos o nariz próximo ao copo (um copo trapista - já que é fundamental servir uma cerveja no copo correto) há uma explosão de aromas: podemos identificar claramente chocolate, toffe (sim, aquelas balas), um pouco de café, doce de banana torrado e, bem ao fundo, um herbal refrescante. 
O sabor, além de apresentar o chocolate, o toffe e a banana, apresente toques de frutas vermelhas, como ameixas, sendo que no final ela se torna licorosa e, vale dizer, que eu senti, ontem, após deixá-la um pouco em repouso, o gosto de cascas de uvas vermelhas, além de um picante por causa do álcool.

Uma cerveja belga magnífica, que para o total aproveitamento deve ser servida na temperuta correta, entre 15º - 18°C. Devo contar que apenas uma vez, quando apreciei um exemplar sozinho, em casa, pude sentir, claramente o aroma e sabor de lichia, como se estivesse na boca com aquelas balas vendidas na Liberdade. Acredito, assim como meu tio, que isso tem a ver com a temperatura de serviço, que deveria, no caso, estar perfeita, e com o tempo de guarda da cerveja.

Por fim, digo, que essa é uma cerveja fenomenal, figurando, com certeza, entre as melhores do planeta, excelente para ser aberta num tempo frio como o de hoje, para, escutando uma bela música, pensarmos na vida.

Prove, se você gosta de cerveja, não haverá arrependimentos, isso eu garanto.


Fontes

http://www.abbaye-rochefort.be
http://www.brejas.com.br
1001 Beers You Must Try before You Die - Adrian Tierney Jones

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Três grãos em uma cerveja... Karmeliet, uma iguaria belga

Para abrir os posts sobre cervejas, começo com uma das minhas favoritas: a excelente Tripel Karmeliet.

Essa bela cerveja belga tem suas origens no ano de 1679 proveniente dos monastérios das freiras carmelitas, em Dandermonde, região situada a cerca de 40 quilômetros da capital Bruxelas - interessante notar que o perído de início da produção correspondeu à época em que o país estava sob o domínio espanhol do imenso Império Habsburgo. Essa cerveja, classificada como Ale (cerveja forte), é histórica pelo fato de ter em sua produção, além da presença de lúpulo, o uso de três grão distintos: trigo, cevada e aveia, utilizados tanto na forma maltada quanto não maltada (6 grãos no total, pode-se dizer).

A produção a partir do século XVIII ficou nas mãos da família Bosteels e permanece até os dias atuais, valendo a menção de que essa família está na sétima geração de decendentes que continua a "tocar o negócio", possuindo atualmente uma cervejaria (criada na década de 1990) que produz também a Pauwell Kwak e a DeuS, sendo essa última conhecida por ser fabricada pelo Método Champenoise, com aspecto de champagne (claro), fermentações dentro da própria garrafa... mas não é dessa cerva que estamos falando - fica, talvez, para uma próxima ocasião comentarmos sobre a DeuS.

Vale mencionar também que, na opinião dos degustadores profissionais, a Karmeliet sempre se sai bem em "testes cegos", figurando não raramente entre as melhores posições nas competições de cerveja pelo mundo afora.

Seguem alguns títulos que a Karmeliet já conquistou:

Medalha de ouro na World Beer Cup (USA) em 1998;
Medalha de prata na World Beer Cup (USA) em 2002;
Medalha de ouro na World Beer Championship (Chicago-USA) em 1998;
Medalha de bronze no Brewing Industry International Awards (London) em 2004;
Medalha de ouro na European Beer Star Germany 2005; e
Título de "World's Best Ale" na World Beer Awards (WBA-London) em 2008.

Karmeliet em "garrafão" aqui em casa

No que diz respeito ao aspecto visual, a cerveja apresenta coloração dourada, translúcida e com enorme espuma, densa, branca, de longa duração. Ao colocarmos o nariz no copo, sobresaem-se notas cítricas de laranja e damasco, florais, além de levedura - na versão garrafão, é possível sentir aquele aroma do resto de Yakult que fica depositado após tomado, dada a fermentação que acontece naturamente ao abrir a garrafa - e um dulçor bastante marcante (proveniente da aveia), gostoso. Tudo isso sentido de forma clara, sem muitos esforços.

O sabor segue o aroma, valendo mencionar um certo sabor "picante", em decorrência da elevada presença de álcool - 8% -, que não atrapalha esse maravilhoso conjunto.

Recomenda-se servi-la, para uma melhor experiência sensorial, em temperatura entre 10º e 12ºC, além de evitar derramar no copo o fermento que fica depositado no fundo, pois, quando feito, altera bastante o sabor e aroma da cerveja.

O preço médio dessa breja aqui em São Paulo, nos bares, é de R$ 30,00 (garrafinha 330mL) e R$ 70,00 (Garrafão 750mL); já nos empórios é, respectivamente, R$ 19,00 e R$ 50,00 - Sim, pagamos muito mais caro quando bebemos no boteco.

Por fim, eu recomendo essa excelente tripel belga, que, com certeza, é uma das melhores que eu já provei e uma das melhores do mundo (se não a melhor) no estilo; e, independentemente do preço, a experiência sensorial, a descoberta de novos aromas, sabores são muito bem-vindas e prazerosas.

Não deixem de prová-la. 

Fontes:

http://www.bestbelgianspecialbeers.be
1001 Beers You Must Try before You Die - Adrian Tierney Jones
Conhecimento empírico, claro.

sexta-feira, 29 de julho de 2011

Cubismo, olhar de criança, blog

 O Cubismo foi uma das Vanguardas Européias: uma série de movimentos artísticos que aconteceu na passagem do século XIX ao XX, prolongando-se pelas duas primeiras décadas do novo século. Esses movimentos tinham a grande característica de estarem a frente de seu tempo, ou seja, a proposta dos artistas era produzir uma arte ainda não vista, de forma a guiar a cultura contemporânea, em contraposição às estéticas realista e impressionista que eram bastante fortes durante o peródo oitocentista.

A vanguarda por nós em destaque surgiu no início do século XX, nas artes plásticas, tendo como fundadores e principais expositores o espanhol Pablo Picasso (1881 - 1973) e o francês Georges Braque (1882 - 1963), além desses, outros artistas como o francês Fernand Léger (1881 - 1955) e russo Kazimir Malevich (1878 - 1935) também contribuiram para o Cubismo. As obras cubistas  têm como ponto mais marcante a representação das formas da natureza por meio de figuras  geométricas, sobrepostas no mesmo plano, sem compromissos com a real representação das coisas. Tal característica vai em sentido contrário à Mimesis - imitação - da natureza, ideal consagrado nas obras clássicas (Renascimento, por exemplo) e bastante presente na estética Realista, em que as figuras, quando não idênticas à realidade, são bastante semelhantes.

An Englishman in Moscow (1913-14) - Kasimir Malevich
Tete d'une Femme Lisant - Picasso
Violon and Jug - Georges Braque
O que mais me chama a atenção nessas obras é o caráter "multifacetado" da representação humana, em que vemos na mesma figura mais de uma expressão facial (o que até então na história da arte não tinha sido feito, acredito). Ao contrário do que se constata objetivamente nas pinturas, para mim não há o completo abandono da Mimesis: o que há é uma tentativa de representação da natureza subjetiva do homem por meio da abordagem de expressões faciais distintas, ao mesmo tempo e no mesmo plano - algo que ora e vez presenciamos no cotidiano, em que esse aspecto "multifacetado" das pessoas se manifesta, explico melhor.

Quantas vezes já não vimos um conhecido nosso de relançe, durante uma conversa ou qualquer outra atividade que seja, e pareceu que não conhecíamos aquele rosto, mesmo que por um espaço de tempo bastante breve - mas logo em seguida, voltamos a visualizar o semblante (a expressão) a que estamos acostumados?

Esses momentos evidenciam facetas da essência da pessoa que ficam cobertas pelo "eu-social" (no sentido de um "eu-rotineiro") em que as atividades e as preocupações cotidianas - trabalho, casamento, família, etc. - fazem com que o indivíduo se esqueça - ou nem saiba - que pode, por exemplo, ter um contato mais significativo, mais autêntico e descompromissado com as coisas da natureza e com as criações humanas quando livre de pré conceitos e julgamentos formulados - opiniões essas formadas para simplesmente o indivíduo não se desvincular desse eu-social, de seu "porto seguro" a que está acostumado.

É claro que podemos (e devemos), por exemplo, assistir a um filme ou escutar uma música de forma descompromissada, sem levar em conta a reputação de determinado diretor ou de uma banda - ou até mesmo aquela expressão "ouvi falar a respeito" -, para, aí sim, refletirmos sobre aquilo com que tivemos contato e emitir um julgamento, favorável ou não.

Ou seja, acredito ser importante exercitar a capacidade de lançar um olhar de criança - olhar esse acobertado pelos afazeres cotidianos - inocente, despreocupado, pronto para novas experiências e descobertas, para que possamos aproveitar plenamente as novas situações a que somos submetidos e sermos capazes de crescer como pessoas - situações essas não só intelectuais, mas também de contato com outros indivíduos, com outros lugares, etc.

Les Acrobates dans le Cirque (1918) - Fernand Leger

Essa, portanto, é a proposta do blog: apresentar um pouco do meu universo - meu gosto por música, cinema e, claro, por cervejas - e tentar despertar esse aspecto multifacetado do qual falei acima e que os cubistas apresentaram em suas obras, que faz parte da essência das pessoas, e é por nós ignorado. 

Achei interessante ter como matéria do post inaugural o objetivo deste espaço e espero que as pessoas que lerem - não me importa o número - aproveitem e possam entrar em contato com algo que talvez não conheçam.

Obs: Agradeço aos meus amigos Celso, Ricardo, Rimon e Ronald que me incentivaram a criar esse espaço, cujas idéias já vinham sendo discutidas em mesas de bar por aí...